A Liga de Delos e o princípio da Guerra do Peloponeso na Grécia Antiga.

Atualizado: 4 de jan. de 2021

Após as Guerras Médicas contra os persas (conhecidos como medos pelos gregos), Atenas passa a ter grande poder e influência perante as demais cidades-estados através da Liga de Delos, que seria o ponto de partida para que Esparta e seus aliados se voltassem contra os atenienses, dando início assim a Guerra do Peloponeso.


Entre os séculos VI a.C. e V a.C., os gregos entraram em confronto com o império persa, começando as Guerras Médicas (os gregos chamavam os persas de medos). As cidades-estados gregas uniram-se para derrotar o exército inimigo. A vitória grega representou não apenas o seu domínio sobre o mundo antigo, como também trouxe inúmeras mudanças na organização das cidades-estados com a ascensão de Atenas e Esparta.


Formada a Liga de Delos, o comando e organização ficaram sob responsabilidade de Atenas, que passou a estipular contribuições que as cidades-estados deveriam fazer à coletividade, para ser dada continuidade a guerra contra os persas. O nome dessa união helênica é conhecido como Liga de Delos (nomenclatura que foi dada modernamente) e se deve ao fato que o tesouro em comum era, inicialmente, salvaguardado na ilha de Delos, localizada no Mar Egeu, dentro do templo dedicado a Apolo. Juntas, as póleis conseguiram somar valores suficientes para combater e resistir aos persas.


As póleis que formavam a liga eram, ainda, independentes entre si, mas, deviam contribuir a esse tesouro comum, que tinha a função vital de financiar proteção militar. Elas se tornam, então, nas palavras de Tucídides, aliadas tributárias em busca de um bem em comum.


A contribuição à liga poderia ser feita através de soldados, barcos ou material que servisse para a resistência militar grega. Porém, cada vez mais as cidades-estados começaram a contribuir de forma pecuniária. Isso se dava principalmente entre as menores póleis, que por terem pequenas estruturas, não podiam ceder número grande de homens ou ter receita suficiente para contribuir com barcos.

O domínio da democracia ateniense na Liga de Delos contribuiu para o início da Guerra do Peloponeso.


O domínio de Atenas sob os aliados começou a ficar cada vez mais intenso e a finalidade original da liga começou a ser desvirtuada e a se perder. No ano de 454 a.C. o tesouro coletivo da liga é transferido de Delos para Atenas e, além disso, os atenienses aumentam o valor da tributação e começaram a gastá-la na reconstrução de sua cidade, que tinha sido destruída pelos persas no fim das Guerras Médicas.


Nesse momento, a ameaça persa não era mais uma constante no mundo grego, não existia mais a motivação "persa" que justificou a união dos aliados, mas, mesmo assim, Atenas não tinha interesse nenhum em desfazer a Liga de Delos. Os atenienses vinham usando o fundo da liga e a marinha construída por ela para uso pessoal, ganhando e se apropriando de mais recursos, lucro e territórios.


Atenas desvirtua a Liga de Delos e passa a coagir os antigos aliados ao pagamento de tributos, além de impor seu modelo de sistema político, a democracia. Com isso, a autonomia e independência das póleis, característica primordial da Grécia Antiga, vai sendo diminuída através de diversos tipos de controle exercidos pelos atenienses. Surge o Arkhé Ateniense, mais conhecido como Império Ateniense, e a democracia passa a ser um de seus pilares, além de ser a justificativa para a expansão do seu controle em terras helênicas.


A tributação também era usada como forma de controlar a insurreição das cidades subordinadas, ela fazia com que estas não conseguissem formar uma força militar independente, já que não conseguiriam juntar valores suficientes para se revoltar contra Atenas, que estava muito bem preparada.

Mapa que indica o arkhé ateniense ou Império Ateniense até o início da Guerra do Peloponeso.


Mesmo durante o arkhé ateniense, Esparta se manteve como um ponto independente dentro do mundo helênico. Os atenienses eram titulares de uma hegemonia das póleis da região do Peloponeso (península no sul da Grécia) mas as suas cidades aliadas mantinham certa autonomia, ao contrário das cidades submetidas à Atenas. Essas divergências internas, que já comentamos anteriormente, se mantêm mesmo com as tentativas atenienses de homogeneização das cidades-estados e, com o fim da ameaça persa, não haverá mais inimigo em comum que justifique as cidades abrirem mão de sua independência em nome de uma unidade grega de defesa.


O crescimento de poder de Atenas começa a causar medo às outras cidades-estados, que viam sua soberania ameaçada pelas imposições políticas e tributárias atenienses, assim como por ela estar acumulando cada vez mais recursos e controle, tornando-se uma força quase impossível de ser combatida. A situação grega se torna insustentável, empurrando Esparta ao conflito e à guerra, lembrando que ela era uma sociedade completamente voltada para a preparação militar de seus meninos e homens, então o conflito como solução à ameaça de sua soberania era esperado.


A consequência para o surgimento dessas novas contendas vai ser a Guerra do Peloponeso, conflito militar que durou entre os anos de 421 a 404 a.C. e se deu entre o arkhé ateniense e Esparta, acompanhada de suas póleis aliadas (no que ficou conhecida como a Liga do Peloponeso). Tratou-se de uma luta fratricida entre cidades gregas, que anos antes tinham lutado como aliadas contra um inimigo em comum, os persas, mas que agora viam na guerra a única solução para o seu confronto de ideias.


As póleis começam a ver a democracia como uma forma tirânica de controle, que lhes tirava soberania e independência (era somente uma forma que Atenas encontrou para suprir seus desejos de poder e riqueza). Nesse momento, o sistema democrático passa a ser um símbolo e uma ferramenta da supremacia ateniense, causando a bipolarização do mundo helênico em dois modelos de sistema político, a democracia de Atenas e a oligarquia espartana.


Esparta passa então a lutar em nome da independência e contra a democracia, e foi justamente essa ameaça a sua liberdade que as póleis do Peloponeso vão usar como argumento para a legitimação da guerra, pregando que estavam lutando pela liberdade de todos os gregos.


Em 404 a.C., os atenienses renderam-se. O século de Péricles, caracterizado pelo apogeu de Atenas e pela fundação da democracia, foi destruído nessa guerra. Esparta saiu vitoriosa, mas enfraquecida por conta da longa duração da guerra e do esforço empreendido. Isso facilitou sua conquista pela Macedônia.


A Guerra do Peloponeso marcou o fim do Período Clássico da Grécia Antiga. Marcou também a invasão dos macedônicos liderados por Filipe II e, após sua morte, pelo seu filho Alexandre, o Grande.


A cultura grega que se consolidou em seu território foi levada para outras regiões e misturou-se com as culturas de outros povos. Esse contato da cultura grega com culturas estrangeiras foi chamado de helenismo.


Referências Bibliográficas:

FUNARI, P. P. Grécia e Roma. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2002. (Coleção Repensando a História).


MAGNOLI, D. (Org.). História das guerras. 4. ed. São Paulo: Contexto, 2009.


GONÇALVES, F. J. A. P. e C. O crescimento do império ateniense e o medo causado em Esparta: o efeito “spill over” da democracia. Revista Militar, Lisboa, n. 2497/2498, fev./mar. 2010. Disponível em: https://www.revistamilitar.pt/artigo.php?art_id=552#_ftn1. Acesso em: 28/11/2020.



Por Sérgio Amaral, historiador e host do Podcast História e Sociedade.


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