A Batalha do Curupaiti: a derrota da tríplice aliança que mudou os rumos da Guerra do Paraguai.

Atualizado: 4 de jan. de 2021

Derrota que chegou a balançar a Tríplice Aliança e, que após o seu fim, o então Marquês (futuramente Duque) de Caxias assumiria o comando das tropas brasileiras na Guerra do Paraguai, mudando os rumos do conflito em favor do Brasil.


Após a derrota na Batalha de Curuzú, Francisco Solano López havia dado ordens para reforçar a posição de Curupaiti por volta de 8 de setembro de 1866, com a construção de uma trincheira mais consistente, 5.000 homens e muita artilharia. Isso porque ele imaginava que se os aliados tomassem Curupaiti, ficariam à retaguarda do restante do exército paraguaio.


No intuito de obter tempo para a conclusão da obra, López convidou Mitre (presidente argentino e supremo comandante aliado no Paraguai) para deliberar sobre um acordo de paz numa conferencia em Yatayty-Corá, em 12 de setembro de 1866. Após a reunião Mitre ainda pensou até o dia 14 para responder negativamente às propostas do presidente paraguaio. Além disso, as já mencionadas disputas de cunho mais político do que militar entre os comandantes aliados retardaram o ataque à posição até o dia 17 de setembro. Nessa data, porém, começou intensa chuva que durou até o dia 20, quando foi feita a opção por dar tempo para que o terreno secasse um pouco. Assim, o ataque só ocorreu em 22 de setembro, um dia após os paraguaios terem completado suas novas defesas em Curupaiti.

Batalha de Curupaiti, derrota da Tríplice Aliança e que trouxe mudanças no exército imperial.


No plano de ação dos aliados estavam contempladas três iniciativas para o dia 22: o ataque frontal contra Curupaiti (sob comando de Mitre), uma demonstração de força das tropas aliadas em Tuiuti (sob comando de Polidoro Jordão) e um avanço de cavalaria, com 3.500 soldados, pela extrema esquerda das defesas paraguaias de Rojas (sob comando de Venâncio Flores), para explorar aquele flanco inimigo e buscar a junção, através da retaguarda paraguaia, com os assaltantes de Curupaiti.


No dia 22, após quase quatro horas de bombardeio naval, as tropas aliadas receberam o sinal combinado com a esquadra para locomoverem-se em direção ao inimigo entrincheirado. Durante outras quatro horas bateram-se contra um inimigo fortemente protegido que lhes impôs pouco mais de 4.000 baixas, entre mortos, feridos e desaparecidos. Pelo lado paraguaio, as perdas chegaram, a 54 mortos, vitimados principalmente pelo fogo dos mosquetes dos brasileiros postados na margem chaquenha (direita) do rio Paraguai.


Vários foram os elementos que contribuíram para a catástrofe aliada em 22 de setembro de 1866, fazendo com que não possamos, portanto, atribuir culpas somente aos comandantes e suas rivalidades de cunho político. Antes, deve-se procurar compreender as condições táticas próprias do combate de meados do século XIX.


Notava-se então que Curupaiti ocupava posição já naturalmente forte, pois era elevada e, dessa maneira, dominava o terreno em frente, porém, salienta que os paraguaios reforçaram-na de tal maneira entre os dias 8 e 21 de setembro que ela se tornou praticamente inacessível para quem vinha de Curuzú. O traçado da trincheira principal era marcado por reentrâncias _ ao contrario de Curuzú cuja trincheira era praticamente uma linha reta _ que possibilitavam o tiro de enfiada (aquele que é feito quando se está em posição bastante protegida e vantajosa em relação ao inimigo, que não pode ou dificilmente consegue se proteger) contra assaltantes que eventualmente entrassem no fosso e se encostassem no sopé do parapeito. Em virtude das chuvas que caíram entre 17 e 20, o terreno entre Curupaiti e Curuzú estava encharcado, tornando sua travessia uma verdadeira provação para os soldados aliados.

Mapa que ilustra as ofensivas aliadas em terreno paraguaio, com destaque para o início com Curuzú e Curupaiti.


Por fim, destaca-se os erros cometidos pelos aliados. Entre estes: o fato de realizarem reconhecimentos muito superficiais, não descobrindo sequer a natureza do terreno que teriam que atravessar; a artilharia terrestre aliada era muito limitada, em quantidade e poder de fogo para causar qualquer estrago de proporções consideráveis entre os defensores; o tempo que os aliados “concederam” aos homens de López para que reforçassem a posição, devido às disputas estéreis e às deliberações de paz após a conferência de Yatayty-Corá.


A vitória sobre os aliados elevou a moral de Solano López perante seus soldados. Porém, o marechal tinha sérios problemas quanto as deserções de suas tropas, desde a invasão de Mato Grosso. Após a vitória em Curupaiti, López publicou uma ordem que determinava o fuzilamento de pais, esposa, filhos e irmãos de cada soldado que desertasse. Além disso, qualquer soldado era passível de ter pena de morte se fosse considerado responsável pela deserção de um companheiro de trincheira ou alojamento. Isso transformou cada soldado paraguaio em espião e delator, o que explicava a baixa deserção após esse evento. A derrota aliada permitiu um pensamente conciliatório de estabelecer a paz. Lopez acreditava que as grandes desavenças que se iniciou, após Curupaiti, entre os generais do comando aliado, faria com que a Tríplice Aliança deixasse de agir, e a paz seria inevitável. Por isso em novembro de 1866, ele se encontrou com o representante norte-americano Charles Washburn que acreditava que a Aliança se desfaria, e o Império se exauriria em seus recursos materiais, antes de conquistar o Paraguai.


A batalha de Curupaiti se tornou a maior derrota aliada em toda a guerra. No meio militar, em especial o comando aliado, aumentou-se as distensões entres os generais. De um lado, o almirante Tamandaré e Porto Alegre, ambos do partido liberal no Brasil, hostilizavam Bartolomé Mitre. Do outro, Polidoro, do partido conservador brasileiro e Flores, se solidarizaram com o comandante argentino. Tal desentendimento ameaçou o próprio andamento das forças aliadas na guerra. Mitre já não mais respeitava Tamandaré, pois o achava inadequado em todos os aspectos e, segundo ele, trazia seu primo Porto Alegre em uma tentativa de monopolizar o comando as forças terrestres e navais brasileiras. Aliado a isso, existia uma discórdia entre os generais brasileiros, obrigando o governo imperial a emitir um decreto em 10 de outubro de 1866 que nomeava o Marquês de Caxias como novo comandante das forças brasileiras. A nomeação teve por objetivo acabar com tais desentendimentos e unificar o comando a alguém que era considerado o militar brasileiro mais importante naquela época. Por fim, a derrota em Curupaiti interrompeu as operações aliadas por dez meses, só retomando o avanço em julho de 1867.


O governo argentino, alarmado com a derrota em Curupaiti, desejava negociar uma trégua ou a paz com o Paraguai. Para isto, autorizou Mitre a iniciar conversações com o governo paraguaio, entendendo-se previamente com o Brasil e o Uruguai. Autorizou também a não cumprir os artigos do Tratado da Tríplice Aliança que não fossem favoráveis a Argentina.


A repercussão da derrota no Brasil foi péssima, principalmente no círculo político do Rio de Janeiro. Realmente se debatia entre os políticos a ideia de se fazer paz com o Paraguai e iniciar negociações com Solano López. No entanto, essa ideia desagradava completamente o imperador D. Pedro II. Ele havia dito que qualquer negociação com Solano López, que não fosse nos termos do Tratado da Tríplice Aliança, de 1º de maio de 1865, o mesmo renunciaria o trono do Brasil. Tal ideia não vingou, e os deputados atenderam seu desejo de prosseguir a guerra. O imperador estava empenhado em continuar a guerra mesmo com o mínimo de soldados argentinos e uruguaios apoiando a Aliança.


Referência Bibliográfica:

DORATIOTO, Francisco. Maldita Guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.


MADUREIRA, Antonio de Sena. Guerra do Paraguai. Brasília: UnB, 1982.


GONÇALVES, Leandro José Clemente. Tática do exército brasileiro na Guerra do Paraguai entre 1866 e 1868. Dissertação (Mestrado em História) - Faculdade de História, Direito e Serviço Social, Universidade Estadual Paulista. Franca, 2009.


Por Sérgio Amaral, historiador e host do Podcast História e Sociedade.


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